quarta-feira, 8 de maio de 2013

MOMENTO DE INTERPRETAR!!!!!!!!!!!!!

De pernas pro ar
            Naquela mesma noite fui acordado diversas vezes por ondas que golpeavam o barco com impressionante violência. O mar parecia ter enlouquecido e não havia mais nada que eu pudesse fazer a não ser permanecer deitado e rezar. Choques tremendos, um barulho assustador, tudo escuro; adormeci. E acordei, deitado no teto, quase me afogando em sacolas e roupas que me vieram à cabeça. Tudo ao contrário: eu havia capotado. Indescritível sensação. Estaria sonhando ainda?
            Não. Alguns segundos, outra onda e tudo voltava à posição normal em total desordem!
            Mal tive tempo de analisar o que se passara, e o mundo deu novamente uma volta completa, tão rápida que nem cheguei a sair do lugar. Lembrei-me da blusa verde, que ganhara da Anne Marie, solta no cockpit, e dos remos - estariam ainda inteiros no seu lugar? Impossível descobrir naquele momento. Precisava tirar a água primeiro. Não havia tempo para pensar. E, sem que eu parasse um minuto de acionar a alavanca da bomba, o dia começou a nascer e pude então perceber o tamanho da encrenca.
            Ondas altas, altíssimas, vindas de todos os lados e que, ao se encontrarem, explodiam para cima. A superfície do mar totalmente desordenado estava branca. A espuma, subindo pela orla e passando pela janelinha, me poupava daquele terrível e irreal cenário. Cercado de ondas que despencavam em estrondos, não tinha certeza se estava realmente flutuando. Vales e montanhas de água em desesperada batalha, em louco movimento. Jamais imaginara algo parecido. Seria normal tudo aquilo? Quanto tempo resistiria àqueles choques? Como um bonequinho de tiro ao alvo, que não sabe quando será acertado, eu ficava esperando por ondas que ouvia mas não podia ver...
            Senti o barco subir mais uma vez e, quando estava exatamente na crista da onda, alguma coisa soltou-se e despenquei no vazio. Algo de errado acontecia. Fui projetado com força contra o teto e aí ouvi o estrondo da arrebentação passando por cima. Mais uma vez o mundo estava de pernas para o ar.
            Os segundos passavam e nada acontecia desta vez. Eu tinha no fundo do barco um sistema de tanques flexíveis de borracha; embaixo dos tanques de água doce, previsto para uma eventualidade como essa. Eram tanques de lastro que, abastecidos com duzentos litros de água, fariam o barco retornar à posição normal. Pensei, então, em acionar a bomba de lastros. Mas não foi preciso. Mal tentei me virar para alcançar a alavanca da bomba, o barco endireitou. Que alívio!
            Talvez não tenham passado três minutos, mas cada minuto foi uma eternidade. O barco parecia solto, correndo instável com o mar, descendo as ondas em velocidade. Vesti o casaco vermelho, saí rápido para fora, e minhas dúvidas se confirmaram: o cabo da âncora-de-mar, um forte cabo de l0 mm de diâmetro, se havia partido como se fosse linha de costurar, e dele não restavam mais que três dos sessenta metros que seguravam a âncora-de-mar.
            Precisava preparar outra biruta com pelo menos outro tanto de cabo para evitar que o barco ficasse de través para as ondas e capotasse novamente. Os dedos tremiam ao fazer os nós e as emendas. Estava nervoso, e precisava ser rápido.
            O vento há muito ultrapassara os 55 nós de velocidade, e as ondas já beiravam os nove metros de altura com borrifos de espuma que mal me deixavam enxergar. Mas os remos todos estavam no lugar, nenhum se havia quebrado, e a blusa verde, enroscada na ponta de um dos arpões, após três capotagens sucessivas, não me abandonara. Senti uma grande alegria ao vê-la, e um profundo orgulho do meu barquinho. Ele cumprira o seu maior compromisso - o de ser um ”joão-teimoso”, e provara que era um forte. Dificilmente outra embarcação, por maior que fosse, teria se saído de situação tão negra com tanta integridade.
            Numa operação delicada, atado ao cinto de segurança, escorreguei deitado até a proa, passei o cabo da nova biruta pelo olhai e voltei para dentro, fechando a portinhola justo a tempo de evitar a visita de outra onda. Dentro, que delícia! Tudo seco ainda e, ante a total ausência do zunido ensurdecedor do vento, podia ouvir minha própria respiração.
            Troquei as roupas molhadas e deitei exausto. Adormeci (...)
            Ao abrir os olhos, duas horas depois, o mar continuava forte, mas o vento sul tinha diminuído. Dei um berro de alegria e saltei para os remos. Não, África! Não seria desta vez. 
(Klink, Amyr. Cem dias entre céu e mar. 25.
ed.Rio de Janeiro. José Olimpyo, 1989. P 34-6)
01) O texto é um relato de viagem. Os fatos narrados são:
a) Reais
b) Imaginários
c) Fictícios
d) Ilusórios
e) nra
02) Quem é o narrador da história?
a) Um africano
b) Um personagem criado pelo autor apenas para a saga
c) O próprio autor, Amyr Klink
d) Um amigo do autor
e) nra
03) “...o mundo deu novamente uma volta completa...” Esta foi a impressão do narrador. ? O quer tinha acontecido de fato?
a) Uma grande tempestade se aproximava de sua embarcação
b) O barco tinha capotado
c) Seus últimos suspiros podiam ser ouvidos
d) A morte finalmente chegara, mas não o pegara
e) nra
04) Quantas vezes, no texto o barco capotou?
a) mais de seis vezes
b) 6 vezes
c) 5 vezes
d) 4 vezes
e) nra
05) No terceiro paragrafo, apesar de estar passando por uma situação de grande perigo, o navegador não...
a) Se lembrou da blusa verde que ganhara de Anne-Marie
b) Se lembrou dos remos
c) Se lembrou de algo mais importante que a blusa e os remos: esvaziar o barco
d) Se lembrou de Deus
e) nra
06) Segundo o texto:
a) O barco tinha ficado solto em meio as ondas por que o cabo-de-ancora tinha se partido
b) O navegador preparou outra biruta com um cabo maior para evitar que o barco capotasse
c) O autor compara o barco a um joão-teimoso porque o segundo é um brinquedo que sempre volta à posição vertical
d) Numa operação delicada, sem cinto de segurança, ele escorregou deitado até a proa.
e) nra
07) Em qual das alternativas abaixo, foi usado pronome relativo?
a) ..., quase me afogando em sacolas e roupas que me vieram à cabeça.
b) Tudo ao contrário: eu havia capotado.
c) Indescritível sensação. Estaria sonhando ainda?
d) .. outra onda e tudo voltava à posição normal em total desordem!
e) nra
08) Em qual das alternativas o termo em destaque é um pronome indefinido?
a) Naquela mesma noite fui acordado diversas vezes por ondas...
b) ...que golpeavam o barco com impressionante violência.
c) O mar parecia ter enlouquecido e não havia mais nada que eu pudesse fazer...
d) Choques tremendos, um barulho assustador, tudo escuro; adormeci.
e) nra
09) Em “Eu tinha no fundo do barco um sistema de tanques flexíveis de borracha; embaixo dos tanques de água doce, previsto para uma eventualidade como essa.” A frase pode ser reescrita, sem perder nenhuma característica gramatical por:
a) Eu tinha no fundo do barco um sistema de tanques flexíveis de borracha; embaixo dos tanques de água doce, previsto para uma eventualidade como isto.
b) Eu tinha no fundo do barco um sistema de tanques flexíveis de borracha; abaixo dos tanques de água doce, previsto para uma eventualidade como essa.
c) Mim tinha no fundo do barco um sistema de tanques flexíveis de borracha; embaixo dos tanques de água doce, previsto para uma eventualidade como essa.
d) Eu tinha no fundo do barco um sistema de tanques flexíveis de borracha; embaixo dos tanques de água doce, previsto para uma eventualidade como esta.
e) nra
10) No período “Ele cumprira o seu maior compromisso - o de ser um ”joão-teimoso”,...” quem é “ele”?
a) o barco
b) o joão-teimoso
c) o navegador
d) o mar
e) nra
11) O título deste texto, sofre de um problema de popularização da língua portuguesa e apresenta um pequeno problema. Qual?
a) O fato de começar com preposição
b) O termo pro na verdade não existe
c) O certo seria “De pernas pros ares”
d) O certo seria “De perna pro ar”
e) nra

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