1.
LÍNGUA
FALADA E LÍNGUA ESCRITA
Não
devemos confundir língua com escrita, pois são dois meios de comunicação
distintos. A escrita representa um estágio posterior de uma língua. A língua falada
é mais espontânea, abrange a comunicação linguística em toda sua totalidade.
Além disso, é acompanhada pelo tom de voz, algumas vezes por mímicas,
incluindo-se fisionomias. A língua escrita não é apenas a representação da
língua falada, mas sim um sistema mais disciplinado e rígido, uma vez que não
conta com o jogo fisionômico, as mímicas e o tom de voz do falante.
No Brasil, por exemplo, todos falam
a língua portuguesa, mas existem usos diferentes da língua devido a diversos
fatores. Dentre eles, destacam-se:
Fatores regionais:
é possível notar a diferença do português falado por um habitante da região
nordeste e outro da região sudeste do Brasil. Dentro de uma mesma região,
também há variações no uso da língua. No estado do Rio Grande do Sul, por
exemplo, há diferenças entre a língua utilizada por um cidadão que vive na
capital e aquela utilizada por um cidadão do interior do estado.
Fatores
culturais: o grau de escolarização e a formação cultural de um indivíduo
também são fatores que colaboram para os diferentes usos da língua. Uma pessoa
escolarizada utiliza a língua de uma maneira diferente da pessoa que não teve
acesso à escola.
Fatores contextuais:
nosso modo de falar varia de acordo com a situação em que nos encontramos:
quando conversamos com nossos amigos, não usamos os termos que usaríamos se estivéssemos
discursando em uma solenidade de formatura.
Fatores
profissionais: o exercício de algumas atividades requer o domínio de certas
formas de língua chamadas línguas técnicas. Abundantes em termos
específicos, essas formas têm uso praticamente restrito ao intercâmbio técnico
de engenheiros, químicos, profissionais da área de direito e da informática,
biólogos, médicos, linguistas e outros especialistas.
Fatores naturais: o
uso da língua pelos falantes sofre influência de fatores naturais, como idade e
sexo. Uma criança não utiliza a língua da mesma maneira que um adulto, daí
falar-se em linguagem infantil e linguagem adulta.
Fala
É a utilização oral da língua pelo
indivíduo. É um ato individual, pois cada indivíduo, para a manifestação da
fala, pode escolher os elementos da língua que lhe convém, conforme seu gosto e
sua necessidade, de acordo com a situação, o contexto, sua personalidade, o
ambiente sociocultural em que vive, etc. Desse modo, dentro da unidade da
língua, há uma grande diversificação nos mais variados níveis da fala.
Cada indivíduo, além de conhecer o que fala, conhece também o que os
outros falam; é por isso que somos capazes de dialogar com pessoas dos mais
variados graus de cultura, embora nem sempre a linguagem delas seja exatamente
como a nossa.
Níveis da
fala
Devido ao caráter individual da
fala, é possível observar alguns níveis:
Nível coloquial-popular: é a fala
que a maioria das pessoas utiliza no seu dia a dia, principalmente em situações
informais. Esse nível da fala é mais espontâneo, ao utiizá-lo, não nos
preocupamos em saber se falamos de acordo ou não com as regras formais
estabelecidas pela língua.
Nível formal-culto: é o nível
da fala normalmente utilizado pelas pessoas em situações formais.
Caracteriza-se por um cuidado maior com o vocabulário e pela obediência às
regras gramaticais estabelecidas pela língua.
Signo
O signo
linguístico é um elemento representativo que apresenta dois aspectos: o significado
e o significante. Ao escutar a palavra cachorro, reconhecemos
a sequência de sons que formam essa palavra. Esses sons se identificam com a
lembrança deles que está em nossa memória. Essa lembrança constitui uma real
imagem sonora, armazenada em nosso cérebro que é o significante do signo
cachorro. Quando escutamos essa palavra, logo pensamos em um animal
irracional de quatro patas, com pelos, olhos, orelhas, etc. Esse conceito que
nos vem à mente é o significado do signo cachorro e também se
encontra armazenado em nossa memória.
Ao empregar os signos que formam a
nossa língua, devemos obedecer às regras gramaticais convencionadas pela
própria língua. Desse modo, por exemplo, é possível colocar o artigo indefinido
um diante do signo cachorro, formando a sequência um cachorro,
o mesmo não seria possível se quiséssemos colocar o artigo uma diante do
signo cachorro. A sequência uma cachorro contraria uma regra de
concordância da língua portuguesa, o que faz com que essa sentença seja
rejeitada. Os signos que constituem a língua obedecem a padrões determinados de
organização. O conhecimento de uma língua engloba tanto a identificação de seus
signos, como também o uso adequado de suas regras combinatórias.
|
signo = significado (é o conceito, a ideia
transmitida pelo signo, a parte abstrata do signo) + significante (é a imagem
sonora, a forma, a parte concreta do signo, suas letras e seus fonemas)
|
|
Língua: conjunto
de sinais baseado em palavras que obedecem às regras gramaticais.
Signo: elemento
representativo que possui duas partes indissolúveis: significado e
significante.
Fala: uso
individual da língua, aberto à criatividade e ao desenvolvimento da liberdade
de expressão e compreensão.
|
2. MARCAS DE ORALIDADE: REGISTRO INFORMAL
X REGISTRO PADRÃO DA LINGUA
Mais uma vez, o
que se afirma, aqui, é que cabe à escola dar a vivência plena da língua
materna. Todas as modalidades têm de ser “valorizadas” (falada e escrita,
padrão e não-padrão), o que, em última análise significa que todas as práticas
discursivas devem ter o seu lugar na escola. E mais uma vez se afirma, por
outro lado, que à escola, particularmente, cabe o papel de oferecer ao usuário
da língua materna o que, fora dela, ele não tem: o bom exercício da língua
escrita e da norma padrão. Neves (2001:339)
Para esta
análise, considerarei apenas as disposições sintáticas que indiquem influência
oral, tal como marcadores conversacionais, desconsiderando demais ocorrências
que não se enquadram na norma padrão, principalmente no que diz respeito à
ortografia. Feita a ressalva, apresento nove orações selecionadas a partir da
produção escrita dos alunos da 5ª. série.
(1) Quando jogaram ela da janela ela estava viva.
(2) (...) e não tivesse pessoas que brigam, ia ser melhor e que não tivesse tanto lixo e assim ela ficaria mais limpa, e que as pessoas não roubassem as coisas dos outros e que dessem uma comida boa (...).
(3) Eu gosto da escola porque eu vejo os meus amigos e porque eu aprendo e também vou nos passeios.
(4) A professora manda lição de casa e eles não fazem a lição de casa.
(5) O que eu não gosto é quando eu chego atrasado.
(6) (...) Um dia eu falei pra uma amiga minha ela falou que não era a mãe dela que pagava por isso (...).
(7) A e também na nossa escola ano passado teve muitas brigas na escola (...).
(8) (...) e saiu correndo o leão aí os cara saiu correndo lá pra casa da menina.
(9) (...) essa tragédia aconteceu faz tempo.
(2) (...) e não tivesse pessoas que brigam, ia ser melhor e que não tivesse tanto lixo e assim ela ficaria mais limpa, e que as pessoas não roubassem as coisas dos outros e que dessem uma comida boa (...).
(3) Eu gosto da escola porque eu vejo os meus amigos e porque eu aprendo e também vou nos passeios.
(4) A professora manda lição de casa e eles não fazem a lição de casa.
(5) O que eu não gosto é quando eu chego atrasado.
(6) (...) Um dia eu falei pra uma amiga minha ela falou que não era a mãe dela que pagava por isso (...).
(7) A e também na nossa escola ano passado teve muitas brigas na escola (...).
(8) (...) e saiu correndo o leão aí os cara saiu correndo lá pra casa da menina.
(9) (...) essa tragédia aconteceu faz tempo.
Como podemos
observar, nessas nove frases colhidas das redações, a influência oral é
bastante evidente. Na maioria delas isso é perceptível devido à quantidade de
repetições, tanto de pronomes como de substantivos e preposições. Em (1), a
repetição do pronome ela poderia ter sido evitada com o uso do pronome
clítico: e.g. Quando
a jogaram da janela, ela estava viva. No entanto, como
aponta o estudo de Duarte (1989), o clítico no português brasileiro (PB) é
condicionado pelo grau de escolaridade, pois na quase totalidade dos casos é
adquirido primeiro na escrita e só posteriormente na fala. Isso explicaria o
fato de alunos da 5ª. série não dominarem o uso do pronome clítico e repetirem
o pronome do caso reto, o que, aliás, é muito mais freqüente no PB.
Em (3), (4) e
(7), para evitar a repetição, bastaria simplesmente excluir os pronomes e os
substantivos que se repetem, pois tal feito não prejudicaria em nada a
compreensão das frases. Em (2), a constante repetição da conjunção coordenativa
aditiva (e)
e da conjunção integrante (que) mostram que esse apoiador conversacional de
grande presença na fala também é levado à escrita.
O mesmo ocorre
com os marcadores conversacionais A (7) e aí (8), aquele é usado no diálogo para indicar que
o falante acaba de se lembrar de algo, embora o uso desse marcador não seja
aconselhável no registro escrito padrão, em gêneros como a ficção, em que o
escritor tem liberdade para usar termos mais próximos da linguagem oral –
sobretudo quando se está escrevendo um diálogo – o marcador em questão é
transcrito da seguinte forma: Ah, e muitas vezes acompanhado de um ponto de
exclamação (Ah!).
Quanto ao aí
, esse é um marcador utilizado simplesmente para indicar a
continuidade do que se está narrando e também não é aconselhado em um texto
padrão.
No registro
escrito, ao menos que o escritor queira intencionalmente se aproximar da
oralidade, apoiadores e marcadores conversacionais não têm utilidade, seja
porque se tornam desnecessários seja porque há na escrita uma série de outras
palavras, pontuações etc que substituem esses recursos da fala de maneira mais
coerente com o registro escrito.
Em (5), (6) e
(9), apesar de não haver repetição de palavras, apoiadores ou marcadores
conversacionais, a influência da oralidade ainda é fortemente perceptível, isso
porque as estruturas utilizadas nessas frases remetem ao registro oral e muito
pouco ao registro escrito padrão. O que se percebe em (5) e (6) é uma
prolixidade muito própria da fala, uma vez que na escrita costumamos ser mais
diretos: “Eu não gosto de chegar atrasado” e “Uma amiga disse que não era sua
mãe que pagava por isso” já seriam suficientes para transmitir a idéia central
da frase ao leitor, enquanto que, ao contornar essas idéias com informações e
palavras irrelevantes, como foi feito na frase em questão, percebemos que o
estudante ainda não possui total domínio da escrita padrão.
Em (9) não há
sequer prolixidade, apenas percebemos, como falantes nativos da língua, que o
termo faz
tempo, como está empregado na frase, se aproxima ao relato oral
ou simplesmente se distancia do registro escrito padrão, que prefere a variante
“há muito tempo”. Esse termo costuma ser freqüente no gênero fábula ou demais
histórias infantis, que por sua vez (devido ao público a que é destinado), está
mais próximo de uma linguagem oral do que da escrita padrão. Seria de grande
utilidade um estudo que analisasse a influência dos gêneros literários infantis
na escrita de estudantes no processo de desenvolvimento dessa destreza, assim,
teríamos uma melhor percepção do que é influência oral e o que é influência
literária, ainda que de uma literatura mais próxima da oralidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário